
Aos sessenta, o tempo já não corre — ele caminha ao meu lado, de mãos dadas, feito um velho companheiro que sabe contar histórias.
Acordei mais cedo hoje. Café passado devagar, rádio tocando uma canção antiga, dessas que sabem mais de mim do que muita gente. A aposentadoria chegou. E, com ela, uma mistura estranha de liberdade e silêncio.
Não há mais horários rígidos, nem telefonemas apressados. O relógio, agora, é só um enfeite. E, ao contrário do que muitos pensam, o fim da rotina não é o fim da estrada. É só a troca de calçado: tiram-se os sapatos apertados da pressa, calça-se o chinelo leve da contemplação.
Sessenta anos. Quanta coisa vivi! Uns amores, uns tombos, muitos recomeços. Trabalhei duro. Suor, coragem e algumas lágrimas. Mas hoje, olhando para trás, sinto mais gratidão que saudade.
A rua continua a mesma, mas meus olhos não. Vejo detalhes que antes passavam batidos: o balé das folhas no chão, a senhora da esquina sorrindo, o sol de fim de tarde se esgueirando pela janela.
A vida me ensinou a ser menos urgente e mais inteiro. A sorrir de leve, a escutar mais, a saborear o silêncio como quem toma um bom vinho. Descobri que a beleza dos sessenta não está no que falta, mas no que sobra: tempo, afeto, histórias para contar.
E se perguntarem o que vem agora, eu digo: vem o que eu quiser. Porque aposentado, sim. Mas vivo — e ainda cheio de paisagens por dentro.